Publicado originalmente em 06/12/2016 no site da ESPN.
Por Antônio Strini

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Morten Soubak, ex-técnico da Seleção Feminina

Talvez ele seja o mais brasileiro de todos os técnicos estrangeiros que passaram por essas terras. O dinamarquês Morten Soubak descobriu o país nos anos 1990 e fez de tudo para fincar sua história aqui. E conseguiu: levou a seleção feminina de handebol a um nível de excelência nunca antes visto. Em oito anos sob o comando dele, as brasileiras se tornaram temidas no esporte, e a passagem foi coroada com o título mundial em 2013.

Agora, porém, o treinador busca novos desafios. Mas não porque quer: a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) não procurou Morten para renovar seu contrato, que acaba no próximo dia 31 de dezembro. Na última sexta-feira, em entrevista ao SporTV, admitiu que seu ciclo à frente da seleção feminina acabou.

Na página oficial da confederação, nada sobre a declaração, seja confirmando ou desmentido.

“Estou feliz que conseguimos empatar o jogo e ganhar o torneio. Foi uma partida muito brigada e as meninas estão de parabéns pela dedicação de buscar o placar. A Babi fez um grande jogo e nos ajudou a conquistar o resultado, mas é claro que queríamos a vitória”.

Em entrevista ao ESPN.com.br na noite da última segunda-feira, Morten Soubak reiterou: sua passagem pela seleção feminina acabou. Ele evita criticar a CBHb, mas admite surpresa com a forma como está sendo tratado, citando a saída de Jordi Ribera da equipe masculina como parecida à sua, sem conversa ou até mesmo um “obrigado”.

Agora, o dinamarquês quer saber é de 2017. Objetivos novos, quem sabe até voltar a treinar um time de homens. Mas ele garante: “Vou continuar acompanhando o handebol brasileiro. Ficará marcado para sempre comigo”.

Leia abaixo a entrevista completa com o treinador de 52 anos:

Mesmo depois de você falar ao vivo que não seguirá à frente da seleção, a confederação te procurou?
Morten Soubak – Não. Não teve um encontro com relação a isso. E tudo bem. É assim…

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Alexandra Nascimento e o técnico Morten Soubak

Se a CBHb te procurar agora, você também não continua na seleção?
Morten Soubak –Não, agora foi. Agora foi. Não é um negócio que saiu do dia para o outro, que eu inventei de uma hora para outra. Por isso também não tem mais nada a falar. Eu saio, e pronto. Estou feliz com o tempo que tive com a seleção, mas também com o trabalho de anos no Brasil. Trabalhar juvenil, júnior, adulta. É um período longo, grande, claro que nunca vou esquecer. Incluo jogadores, professores, clubes, Jogos Escolares – que sempre tento participar e observar. Inclui muita coisa. E de repente, faltam 25 dias pra acabar 2016… Completo oito anos com a seleção. Parece que foi muito rápido.

A atitude da confederação te surpreende?
Morten Soubak –Não sei. A primeira coisa: estou aqui há oito anos com a seleção e não houve encontro, mas no lado masculino acho que não teve também, pelo que estou sabendo. É a forma como a confederação está procurando outras possibilidades, e tudo bem.

Você imaginava que seria tratado assim, sem ao menos um “obrigado”?
Morten Soubak –Dessa forma, não. Normalmente tem isso, mas tudo bem. Eles deram um contrato até 31 de dezembro, e como não teve um encontro ou contato, eu também tive que pensar no que fazer. É isso o que está acontecendo.

E o que você está pensando agora?
Morten Soubak –Assim como as jogadoras, eu trabalho com um representante que está vendo as possibilidades que estão no mercado. Eu espero que tenha algo novo para mim, outros desafios, possibilidades em 2017, quem sabe a partir de fevereiro, março. Eu vou conseguir outro desafio.

O que você procura, clube, seleção?
Morten Soubak –Estou aberto inclusive também para voltar a treinar times masculinos. Posso trabalhar tanto no masculino quanto no feminino. Eu vou falar com o representante daqui a algumas semanas para ver as possibilidades.

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Está pensando em descansar nesses últimos dias de 2016?
Morten Soubak – (risos) Algo assim. Pensar no que pode ser para frente, mas não agora. Estou terminando esse trabalho aqui. É um período de pensamento, avaliar as oportunidades, é isso que eu tenho que avaliar.

Você vê algum técnico brasileiro capaz de assumir a seleção feminina e manter os resultados dos últimos anos?
Morten Soubak –Com certeza que há técnicos bons no Brasil e com potencial para dirigir uma seleção brasileira. Não duvido. Agora, qual o pensamento (da confederação), não sei falar. Não vou gastar muito tempo para pensar nisso.

Como você avalia sua passagem pela seleção feminina? Foram os anos mais intensos de sua carreira?
Morten Soubak –Com certeza. Não há duvida nenhuma, mas com muita alegria em falar isso. São oito anos, com diferentes experiências – de decepção com alegria, satisfação. Conseguimos fazer uma revolução com a seleção adulta para chegar às equipes de elite no mundo. Hoje o Brasil pode contar com essa equipe de nível, só tenho agradecer a todas as meninas que já participaram e às que estão agora. Nós conseguimos uma medalha de bronze no juvenil, fomos campeão mundial com a seleção adulta. Só que aquela maldita medalha (nos Jogos Olímpicos) não caiu para gente, e isso vai ficar marcando. Nós tínhamos a equipe e o nível para conseguir a medalha adulta. Tivemos duas meninas eleitas pela federação internacional como melhores do mundo (Alexandra Nascimento e Duda Amorim). Várias meninas conseguiram contratos em grandes clubes da Europa. Tem muitas histórias ótimas para contar desse período, foi uma viagem linda. E quem sabe um dia eu estou de volta. Quer dizer, eu me conheço, um dia estarei de volta.

E para a confederação, algum agradecimento?
Morten Soubak – Sim. Foi o presidente Manoel quem me colocou, então confia no meu trabalho. Quem fez isso foi ele. Eu sinto realmente que tenho que agradecer a todo mundo. Foi um aprendizado para mim.

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