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*Entrevista fornecida pela Assessoria de Imprensa da CBHb

A Seleção Masculina de Handebol está com técnico “novo”. Depois de trabalhar como assistente do espanhol Jordi Ribera neste ciclo olímpico, Washington Nunes assumiu o cargo de treinador da equipe nacional. Washington é um velho conhecido no cenário do handebol e vai treinar a Seleção pela terceira vez na carreira. Além do comando técnico, ele vai coordenar também o Centro Nacional de Desenvolvimento do Handebol. A expectativa é de transformar o espaço no epicentro da modalidade no Brasil e de disseminar conhecimento pelo País.

Na entrevista, o novo treinador da Seleção ainda comentou sobre a evolução do handebol brasileiro nos últimos anos, o resultado histórico da equipe nos Jogos Olímpicos Rio 2016, os aprendizados que teve com Jordi e sobre o que espera do time nas próximas competições, agora como técnico efetivo. Além disso, Washington falou sobre o novo modelo da Liga Nacional e como espera ajudar a fomentar a modalidade no Brasil.

Como será o seu trabalho à frente da Seleção? Você dará continuidade ao que o Jordi vinha fazendo?

Washington – Primeiramente tenho que parabenizar o trabalho que o Jordi fez durante esse ciclo olímpico. Recebi o convite e agradeço bastante ao Manoel Luiz Oliveira (presidente da CBHb), não só para ser técnico da Seleção Adulta, mas para coordenar o Centro Nacional de Desenvolvimento do Handebol. Poderemos formar técnicos, jogadores, árbitros, ministrar cursos, fazer acampamentos, torneios e temos como alojar quatro seleções, todas trabalhando ao mesmo tempo. Ou seja, vamos disseminar conhecimento. Quero tornar o Centro um local de convivência e que tenha atividades constantes, com as portas abertas para o desenvolvimento da modalidade. Vamos dar continuidade a tudo que o Jordi fez, mas agora usufruindo desse espaço maravilhoso que é o Centro Nacional de Desenvolvimento do Handebol.

Já com a Seleção Adulta tenho um trabalho pautado até o final do Mundial da França. Quando acabar o mês de janeiro de 2017 faremos uma reunião para avaliar se será necessário a contratação de um técnico estrangeiro ou se eu continuo até o final do ciclo olímpico, em 2020. Independentemente disso, a parte do Centro já está fechada. No final da temporada já paro o meu trabalho na equipe de São Caetano (SP) para focar na coordenação do Centro Nacional de Desenvolvimento do Handebol.

Como treinador, vai tentar colocar um pouco do seu estilo de jogo na equipe?

W – Já temos uma forma de atacar e defender bem definida, que é bem diferenciada e leva muita dificuldade aos adversários, mas também sabemos que o handebol é muito dinâmico, as equipes mudam constantemente e temos que evoluir dentro da nossa proposta de jogo, além de criar novas jogadas. Nesse ponto tenho que criar novas alternativas e isso passa um pouco pelo que penso de handebol. Se ficarmos sempre com a mesma proposta de jogo seremos marcados com facilidade.

Você continuará olhando para o trabalho de base? De que forma?

W – Claro, o trabalho de base foi o grande legado desse ciclo olímpico. A ideia permanece a mesma. Nossa intenção é manter os acampamentos estaduais e levar o nacional para o Centro, mas de forma mais enxuta. Muitos atletas que passaram pelos acampamentos estão hoje na Seleção Adulta. O trabalho de base com todas as seleções treinando e jogando na mesma forma que a Adulta trouxe resultado. Nossos times Juvenil e Júnior conquistaram grandes resultados nos últimos dois Mundiais e sempre que sobem de categoria já sabem exatamente como jogar. Esse trabalho foi muito bem desenvolvido e com certeza será continuado.

É a terceira vez que você assume a Seleção Masculina. A primeira foi em 2005, depois em 2009 e agora 2016. O que mudou das outras duas vezes para cá?

W – Nós aumentamos muito a quantidade de jogadores que podem atender a Seleção Adulta. Antes, nós trabalhávamos com 20 nomes. Se chamássemos dez treinadores diferentes, todos iriam chamar esses mesmos jogadores. Hoje temos uma quantidade muito maior de atletas e com qualidade superior também. Além disso, no passado, os atletas tinham apenas experiência nacional, já esse grupo tem uma vivência na Europa e já passaram por muitos torneios internacionais pelas seleções de base.

Em janeiro de 2017 você já tem um grande desafio, que é o Mundial da França. Como vai preparar a equipe para esta competição?

W – É importante dizer que o ciclo não foi interrompido, ele continua. Dentro do nosso planejamento, sempre que possível usamos as datas IHF (Federação Internacional de Handebol) para reunir a equipe. Já temos um padrão de jogo e vamos mantê-lo, claro que sempre evoluindo dentro dele. Acho que teremos uma participação muito boa no Mundial da França. Temos que sonhar em passar das oitavas de final e acredito que vamos conseguir. Esse grupo é muito competente e compromissado.

Em que nível você vê o handebol brasileiro masculino atualmente?

W – Está em um nível muito elevado. Hoje, com certeza, estamos entre os 16 melhores do Mundo. Ficamos em sétimo nos Jogos Olímpicos e nos dois últimos Mundiais ficamos entre os 16 melhores. Acho que esse lugar já é garantido, mas queremos ficar entre os dez melhores muito em breve, assim como as Seleções Júnior e Juvenil já fizeram nos últimos dois Mundiais.

Você acha que o sétimo lugar histórico nos Jogos Olímpicos Rio 2016 e as vitórias sobre a Alemanha, atual campeã europeia, e a Polônia, vice-campeã europeia e terceiro lugar no último Mundial, fez o Brasil ser mais visado pelas principais seleções do Mundo?

W – Hoje, quando o Brasil enfrentar qualquer equipe do Mundo, ela terá um olhar diferenciado. Jogamos 45 minutos de forma equilibrada com a França e vencemos a Polônia e a Alemanha. Esses resultados fazem com que qualquer Seleção se preocupe. Por esse lado, também temos que nos preparar muito mais, porque sabemos que eles virão para jogar forte e temos que estar preparados. Estamos nesse nível de deixar todo mundo preocupado por estarmos entre os melhores. Para nós, isso é bom, só faz o nível de exigência ser maior.

O sentimento da equipe mudou após resultados tão expressivos?

W – Penso que os meninos mudaram muito no aspecto emocional não só depois dos Jogos Olímpicos, mas durante a competição. Aconteceram muitas coisas nas Olimpíadas que fizeram os atletas pensarem diferente. Não estávamos acostumados a jogar para 20 mil pessoas e com uma mídia tão grande em cima. Não é muito fácil passar por isso sem perder o foco, mas eles conseguiram ficar concentrados só no campeonato. Acho que eles estão muito mais confiantes e acreditando ainda mais que o nosso jogo coletivo funciona. Então eles mudaram sim, e mudaram para melhor.

O handebol brasileiro vem crescendo ano a ano. Com isso, nos próximos anos, com o time mais maduro, você acha que o Brasil pode surpreender ainda mais?

W – Fomos a segunda equipe mais jovem dos Jogos Olímpicos e isso é muito legal porque garante boa qualificação ao menos para mais dois ciclos olímpicos, mas o que ficou claro nesses últimos anos é que ninguém tem lugar garantido. Tem muito jogador bom vindo por aí. Por mais maturidade que eles tenham, eles têm que estar sempre comprovando que devem estar na Seleção. Se eles continuarem comprometidos como estão, acredito que, muito brevemente, esses meninos vão escrever mais histórias inéditas.

Mesmo sendo o segundo time mais jovem dos Jogos Olímpicos, podemos esperar ainda mais renovação em breve? Ou esse é um grupo para se trabalhar nos próximos quatro anos?

W – Tem muito menino jovem chegando e chegando muito bem. Isso não é conversa para não deixar quem está na Seleção acomodado, todos sabem que não têm lugar cativo na equipe e, por isso, se entregam ao máximo nos jogos e treinos para não ficarem para trás. A concorrência é grande e qualificada. Para as próximas fases de treinamentos, vamos trazer mais quatro jogadores em relação ao grupo que foi aos Jogos Olímpicos e esses quatro atletas serão jovens. A renovação é importante e sempre contínua.

Hoje o Brasil conta com um grande número de atletas na Europa. Na sua visão, o que a Seleção ganhou com isso?

W – Ganhou mais experiência e qualidade técnica. O fato de eles irem à Europa proporciona que tenham jogos difíceis toda semana. Isso deixa esses atletas mais “cascudos”. Lá eles treinam todo dia com jogadores muito qualificados e atuam contra os melhores do Mundo. Então vejo que a ida deles para Europa foi e está sendo fundamental para o crescimento técnico da Seleção.

Você atuou como assistente técnico do espanhol Jordi Ribera durante o ciclo olímpico 2013-2016. O que mais você aprendeu com o Jordi?

O aprendizado que tivemos com todos os treinadores estrangeiros foi muito grande, mas o Jordi tem um papel especial nesse processo. Ele se interessou em qualificar muita gente, se preocupou em aumentar o número de jogadores e a qualidade deles com os acampamentos. Dentro da quadra, o que mais aprendemos foi a metodologia e as novas estratégias para o desenvolvimento do trabalho. Foram informações muito ricas e tive o privilégio de ficar ao lado dele nos últimos anos. Com certeza modifiquei minha forma de atuar convivendo com esses métodos de trabalho.

Que tipo de jogadores é necessário para montar uma boa Seleção atualmente?

W – Precisamos olhar sempre que o handebol é muito dinâmico. De uma certa forma, todos cabem no time, o mais alto, o gordinho, o magrinho, o rápido. Hoje, o melhor perfil é de um jogador entre 1,95m e 2,05m, que tenha bastante mobilidade e habilidade. Claro que não vamos ficar limitados apenas a esse biótipo. Todos que têm talento devem ser aproveitados, independentemente das características físicas. Uma defesa maior é importante, mas o Brasil, por exemplo, encontrou uma maneira de jogar muito eficiente com atletas menores.

Como você acha que o novo formato da Liga Nacional, agora dividida em Conferências e com mais clubes, pode contribuir para o handebol brasileiro?

W – Umas das coisas que chamam mais atenção no novo modelo da Liga Nacional é que temos handebol no Brasil inteiro. O fato de abrir a Liga Nacional em Conferências vai aumentar o número de clubes e a perspectiva daquele jogador da base de jogar uma competição de nível nacional pela sua cidade ou Estado. Acredito que ano que vem mais equipes vão querer participar e aquelas que não tiveram o desempenho esperado vão se preparar melhor na parte técnica, tática e física e se reforçar com atletas de maior qualidade. Daqui alguns anos creio que teremos primeira e segunda divisões pela quantidade de clubes que vão querer participar da Liga. Quanto mais praticantes, melhor para a modalidade. Vamos dar um salto de qualidade na Liga. Talvez leve um certo tempo, mas esse modelo pode proporcionar que os jogadores permaneçam no País pelo aumento do nível do campeonato interno. Acredito que seja o modelo perfeito para a Liga Nacional.

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