(*Da assessoria de imprensa da CBHb)

As Seleções Masculina e Feminina de Handebol contam com uma comissão técnica multidisciplinar com o objetivo de suprir todas as necessidades dos atletas e melhorar os resultados das equipes. As nutricionistas são uma das integrantes dessa comissão. Cada Seleção conta uma profissional que carrega a responsabilidade de cuidar da alimentação e suplementação dos atletas. Na entrevista, as nutricionistas Julia Bargieri, da Feminina, e Larissa Aguiar, da Masculina, falaram um pouco dos principais desafios que tiveram ao longo do trabalho com as equipes, da forma que trabalham com os atletas e os resultados obtidos.

CBHb – Quais foram os progressos obtidos desde a chegada na Seleção?

J – O percentual de gordura foi um dos principais avanços. A média da equipe no Mundial do Brasil, em 2011, quando comecei, era de 22%. Já no Mundial da Sérvia, em 2013, a taxa média de gordura da equipe era de 14,7%. Agora, em dezembro de 2015, a média caiu para 12,5%. A troca de gordura por massa magra também foi muito importante. Tem casos de meninas que perderam 12 quilos de gordura. Já outras não perderam peso, mas trocaram cinco quilos de gordura por cinco de massa magra, por exemplo. Esses avanços foram muito importantes para elas.

L – Com certeza foi o ajuste dos cardápios, conforme as necessidades de cada um. Com a alimentação alinhada, agora é só dar continuidade ao trabalho, sempre buscando atender todas as necessidades dos atletas.

283255_603542_bastidores_5_web_

Júlia Bargieri, nutricionista da Seleção Feminina (Paola Donner)

CBHb – Você também percebeu melhora no desempenho dos/das atletas?

J – Sim, no caso das jogadoras que perderam muitos quilos de gordura, foi literalmente um peso que saiu das costas delas. A mobilidade das atletas melhorou bastante, assim como a força delas com o ganho de massa magra. Além disso, a melhora também foi fora de quadra. A alimentação também ajuda na recuperação das atletas no pós-jogo e na qualidade de vida como um todo.

L – Sim, claro. A partir do momento que se consegue estimular a consciência da importância da nutrição, alinhada aos treinamentos físicos, técnico, táticos e psicológicos, os resultados são visíveis. Nota-se progressos tanto corporais, como melhora na recuperação, cansaço e disposição.

CBHb – Como é o trabalho na Seleção? Usa algum método diferente?

J – Não tenho nenhum método diferente. Temos que fazer um trabalho individualizado com cada atleta. A alimentação depende da posição que joga e do metabolismo de cada uma. Muitas vezes a comissão determina que prefere uma atleta mais forte, outra mais magra e assim por diante. Como as meninas são mais vaidosas, às vezes é difícil convencê-las a mudar algumas características do corpo, mas depois que o desempenho melhora, elas acabam aceitando. O nosso grande desafio dentro da Seleção é individualizar o processo. Se tratar a Seleção como um todo você vai errar. Temos que ser especificas com cada uma, respeitando as particularidades de cada corpo.

L – Cada atleta é único. Nem todos precisam das mesmas coisas. Com alguns ajustamos os planos alimentares com as rotinas de treino, montamos cadernos com sugestões de receitas. Outros, dependendo dos objetivos e necessidades, entramos com a suplementação. Hoje também é preciso estimular a consciência da importância dos alimentos o mais naturalmente possível, visando os nutrientes, a comida propriamente dita e o bem estar que a comida pode proporcionar. Hoje, estamos usando alguns métodos como o “mindfuleating”, que abrange a relação que estabelecemos com a comida. Além da nutrição, utilizo técnicas de terapias complementares como a aromaterapia, reiki e auriculopuntura como aliados nos processos de sono, descanso e recuperação.

283255_603539_img_2526_web_

Larissa Aguiar, nutricionista da Seleção Masculina (Divulgação)

CBHb – No caso da suplementação. Todos(as) precisam tomar? É o mesmo suplemento para todos(as)?

J – Também é um trabalho específico. Hoje todas fazem uso dos suplementos, mas cada uma tem um suplemento diferente e tomam em dosagens diferentes.

L – Cada um tem uma necessidade específica. Nem todos precisam de suplementação. Muitos conseguimos ajustar com alimentação adequada e temos resultados, outros precisam de suplementação e vamos avaliando a necessidade da continuidade ou não. Assim como nem todos precisam de suplementação, os suplementos também variam conforme as necessidades individuais de cada um.

CBHb – Como é a integração do trabalho da nutricionista com as outras áreas da comissão técnica?

J – Temos uma integração muito boa. Eles determinam quem tem que estar mais leve ou mais forte e vou fazendo o meu trabalho. A fisioterapia também pode pedir algo específico, como suplementos ou uma alimentação que ajude na recuperação de lesões. Já por conta da psicologia, elas tomam Ômega 3 para a memória. Então sempre estamos trocando informações, visando o melhor para as atletas.

L – Sempre acreditei que conseguimos ter melhores resultados pensando no trabalho integrado. Devemos olhar o atleta como um todo, cuidar da sua saúde física e mental para que eles possam atingir seus objetivos e melhorar o desempenho. A comissão técnica trabalha de forma integrada, discutindo as necessidades de cada atleta para que juntos possamos auxiliá-los e atingir nossos objetivos.

CBHb – Há muita diferença entre o corpo dos(as) atletas? Quais?

J – Temos um grupo que, no geral, tem até dificuldade para ganhar peso, então elas não têm tanto problema com a dieta, apesar de que para ter um percentual de gordura baixo, elas têm que tomar cuidado com alguns tipos de alimentos. Mas também temos meninas com mais facilidade de engordar e que precisam de uma dieta mais balanceada. Isso depende muito da posição, do estilo de jogo e o quanto corre em quadra. No feminino também temos o ciclo menstrual que influencia de forma diferente no corpo delas.

L – Com certeza. Nenhum tem o corpo, o metabolismo ou a resposta igual ao outro. Cada atleta tem particularidades e necessidades que devem ser respeitadas e ajustadas caso a caso.

CBHb – O acompanhamento continua quando eles(as) estão nos clubes?

J – Toda semana entro em contato com elas. Posso dizer que todas mantêm os acompanhamentos comigo enquanto estão nos clubes. Temos que respeitar o ciclo do clube e da Seleção. Nosso foco é sempre a Seleção, mas não podemos atropelar o trabalho feito nos clubes. Vamos nos adaptando para que seja bom para os dois. No momento, por exemplo, nosso foco são os Jogos Olímpicos, mas tínhamos meninas na Final 4 da Champions League. Como elas teriam mais jogos, fizemos um trabalho diferenciado.

L – Sim, continua. A ideia é justamente que eles continuem com o trabalho que é realizado na Seleção. Também vamos ajustando as dietas conforme as necessidades deles nos clubes.

CBHb – No geral, como você acha que está a consciência dos atletas com a alimentação?

J – De 2011 para cá mudou muito. Posso dizer que elas nasceram de novo. Quando comecei na Seleção, as meninas não se preocupavam muito com a alimentação. Elas comiam como pessoas normais, mas atletas têm que comer como atletas. É muito diferente. Para tirar o refrigerante do cardápio, por exemplo, foi bastante difícil. Hoje elas prestam muita atenção na alimentação. Quando estamos em viagem elas comentam sobre a comida dos hotéis. Reclamam se tem muita fritura e pedem para tirarem a sobremesa da mesa para não ficarem com vontade de comer.

L – Hoje vejo que a consciência com relação a alimentação tem aumentado, principalmente quando eles veem os resultados e sentem que foi por conta da adoção de novos hábitos alimentares. Tentamos despertar cada dia mais cedo essa consciência nos atletas. É muito bacana quando conseguimos despertá-los na base. Já na formação desses atletas, vamos orientando, desmistificando condutas equivocadas e enxergando os resultados cada vez mais cedo.

CBHb – Há particularidades do handebol em comparação aos outros esportes na área nutricional? Quais?

J – Acho que as principais diferenças são entre as modalidades individuais e coletivas. O gasto energético para uma modalidade individual como o atletismo, por exemplo, é muito maior e o trabalho de nutrição tem resposta imediata no desempenho. O atleta sente se melhorou em poucos dias. Já no coletivo é diferente. Às vezes você pode estar mal, enquanto o restante da equipe bem. Então isso pode passar despercebido por algum tempo. Ou seja, o trabalho pode demorar mais tempo para aparecer.

L – Cada modalidade esportiva requer necessidades nutricionais específicas. Até mesmo dentro do handebol, cada posição de jogo, por exemplo, exige uma composição corporal e uma resposta diferente. Alguns precisam de mais explosão, outros de mais resistência física, assim como força e potência.

Julia é nutricionista graduada pela Universidade de Mogi das Cruzes e especialista em fisiologia do exercício pela Unifesp. Atuou também como professora em diversas instituições de ensino e como nutricionista no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa. Além do handebol, Julia também trabalha como nutricionista na Confederação Brasileira de Atletismo.

Larissa é nutricionista graduada pela Universidade Metodista de São Paulo, especialista em nutrição esportiva pela Universidade Gama Filho, especialista em teorias e técnicas para cuidados integrativos pela Unifesp e mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atuou como nutricionista no Clube Esportivo Helvetia, assim como nutricionista responsável e professora pelo Mackenzie. Também é idealizadora e fundadora da Anima Assessoria em Mindfulness e Nutrição.

Anúncios